Entrevista à Venice Magazine

Venice: Parabéns por outra temporada maravilhosa de Supernatural e pelo My Blood Valentine 3D. Uma coisa que me impressionou no filme foi que os efeitos 3D não eram apenas coisas a vir na tua direção.
Jensen Ackles: Nunca queres que fique demasiado fictício. Eu lembro-me de falar com o diretor e numa das primeiras chamadas que tivemos ele foi muito claro como isto iria acontecer. Ele não queria coisas demasiado fictícias mas ele queria respeitar os antigos filmes de terror e incluir alguns desses óptimo clichés que os iria honrar.

Eu adoro como tudo está mesmo à tua frente, como quase que consegues esticar-te e tocar tudo. Isso tem de ser a onda do futuro.
Estou surpreendido por terem demorado tanto tempo para inventar o 3D. Eu acho que com a nova tecnologia… eu nem consigo imaginar como será o futuro.

Sinceramente, quando ouviste falar deste projeto alguma vez pensaste, “Temos mesmo de refazer este filme?”
Bem, isto é algo que eu só expressei com os meus amigos, e conhecidos. ‘Deus, é assim tão complicado de ter novas ideias hoje em dia que continuamos a refazer ou a roubar ideias ou séries de outros países? A escrita é tão vazia hoje em dia?’ Mas quando pensas no assunto, e no que realmente me espanta é que este tinha um seguimento de culto mas não era um filme muito, muito bom. O My Bloddy Valentine não foi um grande sucesso. Foi do tipo do Friday the 13th ou Nightmare on Elm Street.

Eu sou velho e gosto de filmes de terror, mas quem é que se lembra dos originais?
Certo, existem poucas pessoas que se apegaram a esses pequenos e únicos filmes de terror, e este é um destes. E acho que em si era único, e aplicar toda esta tecnologia moderna nele e usar o formato 3D, fiquei interessado desde o início.

Há uma cena do hospital onde a tua personagem diz que não vai vender a mina e o Kerr Smith aparece do nada por detrás de uma cortina e toda a gente ri porque é tão ridículo.
E mesmo no início quando o Tom Atkins aparece e ele é encriminado com o coração na janela, há uma quantidade certa de mozzarella espalhada pelo filme para que as pessoas percebam que não estamos a tentar que tudo fique demasiado sério e é uma memória de um filme feito de maneira a que possas relaxar e admirá-lo. É como uma viagem.

Talvez por estares nele, mas quando a tua personagem regressa à cidade não se consegue pensar noutra coisa senão que é um trabalho para os irmãos Winchester.
Verdade. [risos]


Muitas vezes o atores querem manter-se afastados daquilo que os vemos fazer a toda a hora. Alguma vez recusaste papéis de outros filmes de terror antes de aceitares este?
Sim, não estava em número um na minha lista [risos] mas quando este apareceu na minha secretária e me mostraram os nomes das pessoas envolvidas — Lions Gate e o [diretor] Patrick (Lussier), e Jaime (King) eu fiquei logo apegado — e depois li que era em 3D e eu pensei ‘O quê? A sério?’ E agora é uma coisa única à sua maneira. Até podia ser uma comédia romântica que se dissesse 3D, eu ficaria logo interessado. Captou logo a minha atenção. E eu sou fanático por tecnologia. Supernatural acabou de passar para HD este ano; as três temporadas passadas temos filmado em filme, por isso estou sempre atento às pessoas a perguntarem o que está diferente, e a diferença na abertura.

O quão diferente foi para ti? A televisão anda mais rápido, certo?
A televisão é como uma fábrica: é boom, bang, boom; vamos passar à próxima coisa.

Foi mais fácil?
Foi um processo mais longo, ainda por cima o 3D foi um monstro diferente. O diretor e produtor (Brian Pearson) teve de aumentar a luminosidade para que o cenário ficasse muito quente e isto foi outra coisa para aprender. E depois dos primeiros dias tudo pareceu melhor no geral, porque com o elemento 3D tu queres sentir mais do mundo em teu redor, contudo uma boa cena pormenorizada não é tão boa. Por isso enquanto ator que está acostumado a trabalhar em Supernatural com lentes de 180mm tu não precisas de te expressar com os braços ou com linguagem corporal. Por isso agora é tudo dos joelhos para cima e eu tive de ser mais expressivo com a minha linguagem corporal, o que foi a maior diferença para mim.

Eles disseram-te isso ou tu descobriste-o?
Eu descobri sozinho. Apercebi-me disso ao ver-me a mim próprio e eu vi logo que tinha de fazer uns ajustes.

Tu vais ter o filme My Bloody Valentine nos cinemas agora e o teu colega de Supernatural Jared Padalecki vai ter o Friday the 13th nos cinemas este mês. Existe algum senso de competitividade amigável entre vocês?
Não, de todo. De facto, deixa-me procurar [pega no seu telemóvel e vê as mensagens], ele disse, “Olá meu, estava a pensar em ti, espero que esteja tudo a correr bem. Arrasa. Diverte-te.” Não, nós apoiamos-nos muito. Eu mal posso esperar para ver o filme dele e ele disse que queria muito ver o meu.

Terror e suspense são o teu pão de cada dia. Eras fã deles enquanto crescias?
Era, mas não era obcecado. Eu era grande fã de Stephen King e da série de filmes The Friday the 13th e o Nightmare on Elm Street e todos esses clássicos. E o meu pai estava sempre a ver o The Shinning e outras coisas do Kubrick, e o The Exorcist, por isso era algo que gostava bastante.

O teu pai é ator. Algumas vez consideraste fazer outra coisa?
Não, eu nunca pensei, ‘Isto é o que eu quero fazer.’ De facto, eu tinha planos de continuar a estudar e fazer a minha própria vida. Literalmente, acho que a maçã não caiu longe da árvore. Eu fiz algum teatro na escola e alguém reparou em mim e falou comigo para ir para L.A. e a próxima coisa que sei é que estava a receber papéis para interpretar. Depois apaixonei-me por isto. Não era algo para o qual pensava que estava destinadodesde o início. Foi algo que apareceu no meu caminho e eu gostei.

Existia outra coisa que pensavas que podia ser a tua careira para além de ser ator?
Provavelmente algo relacionado com desporto. Eu era um grande fã de desporto na escola e também gostava de biologia e medicina, por isso inicialmente pensei seguir medicina desportiva ou doutor de equipa.

Eras perito em filmes quando eras mais novo?
Não. Eu era dedicado ao desporto por isso estava sempre lá fora a jogar futebol ou basebol ou basquetebol. Mas sempre adorei filmes.

Quem são os teus atores favoritos?
Eu basicamente roubei o favorito do meu pai, Paul Newman. Ver ‘Coll Hand Luke’ centenas de vezes com o meu pai era sempre uma coisa boa. E eu também gosto muito do Albert Finney. Ele fez alguns filmes que me marcaram. E Harrison Ford… Eu sempre fui atraído por heróis como Indiana Jones e Dirty Harry — o homem dos homens.

Corrige-me se estiver errado, mas é verdade que o criador de ‘Supernatural’ Eric Kripke sempre teve planos de 5 anos para a serie?
Acho que acertaste em cheio no número; era um plano de 5 anos. Ele tinha estado a trabalhar na série 7 anos anos de ser lançada. Ele tinha pensado nela como uma série de alguns policias que não voavam, então ele repensou e fez sobre dois irmãos. Ele sempre teve um plano de 5 anos e parece que ele vai conseguir alcançar o sonho.

Bem, agora que estás na Temporada Quatro, dizes-lhe para mudar de ideias para que possas continuar a trabalhar ou estás bem com o facto da série ir acabar?
Eu não sei. Eu acho que cinco anos já é muito bom para uma série, especialmente hoje em dia. Não estamos no tempo em que os canais dão três ou quatro anos para as séries encontrarem o seu lugar e durarem nove anos. Agora tem-se três episódios.

Ouvi falar de alguns atores que estiveram numa série o que pareceu um eternidade e que acabaram por a odiar porque é sempre a mesma coisa.
Sinceramente, olha, eu amo a série. Sou um grande fã e adoro a minha personagem e adoro trabalhar com o Jared; muito até, com a quantidade de tempo que passamos juntos, é incrível que ainda nos demos. Mas para ser sincero, é muito trabalho e eu não acho que exista outra série na televisão agora que só tenha dois atores; por isso é ele e eu o dia todo. Agora, enquanto estamos a falar, ele está a aproveitar para gravar o que pode. Ele está a gravar cenas nas quais eu devia estar, mas ele disse: ‘Meu, vai embora e faz as tuas coisas. Eu aguento. Não te preocupes, vai correr tudo bem.’ É difícil porque olhas à tua volta e vês outras séries como “Heroes” e eles estão a ter muita fama e boas críticas e a equipa tem 20 pessoas, por isso eles estão a trabalhar dois dias por semana e depois vão de férias e ficam com a atenção toda. Entretanto, eu e o Jared estamos em Vancouver a trabalhar 16 horas por dia. Não me estou a queixar, mas fazemos muito trabalho.

E esta temporada parece ser a temporada do Dean. Houve um episódio que volta atrás no tempo e é tudo sobre ti.
Eu acho que ele gravou durante dois dias seguidos e eu disse-lhe para ir embora. Acho que ele foi para o Hawaii durante uma semana.

Então se a série acabar ficas feliz?
Eu não quero ser rude mas não quero chegar àquele momento em que as pessoas dizem, ‘Eles só estão a engonhar agora’ sobre a nossa série. Mas ao mesmo tempo é difícil desistir de um trabalho tão consistente que paga bem, especialmente quando estás numa empresa como esta.

Quando a série acabar preferes fazer mais séries ou filmes?
Sinceramente, se alguma série me enviar um papel que acho que tenha muito potencial ou tenha alguns elementos únicos, digo que sim. Filmes são um pouco diferentes, a menos que estejas na lista dos 20 melhores. Pode ser muito stressante quando acabas de o filmar, e ficas desempregado. Para mim, eu estou aqui a promover um filme, mas estou de volta ao trabalho.

Tu já falaste disto mas alguma vez sentes que Supernatural começa a ser muito visto? Pessoalmente, eu não gosto de reality shows…
Nem eu…

Eu sou um rapaz que gosta de drama. E estou feliz por 24 e Lost estarem de volta.
Concordo plenamente.

E, infelizmente, The Sopranos, e The Wire e The Shield acabaram.
Eu acabei agora a terceira temporada de The Wire.

Eu sou o rapaz que adorou X-Files e millennium e American Gothic. E tu tens definitivamente uma das melhores personagem da televisão.
Não quero parecer convencido, mas eu também acho, e acho que é a maneira de como o escreveram. E originalmente ia ser o Sam, e eu estudei para o ser. E depois da minha audição, eu perguntei literalmente se podia estudar para ser o Dean. Havia algo nele que fez com que eu quisesse experimentar. E eu fiz a audição para ele e eles disseram, “Feito.”

Se tu fizesses de Sam, teria medo do rapaz intenso que iria fazer de Dean.
Mesmo. [risos]

Como é óbvio a série é ótima a fazer suspense e drama, mas também tem um bom senso de comédia. Preferes este em vez dos outros?
Comédia mal está presente, e acho que é algo que eu e os escritores trabalhamos porque ter uma serie que é tão negra, negra, negra, leva as pessoas ao desespero. Por isso adicionar um pouco de comédia e equilibrá-la com os outros elementos, ficas com o espectro todo; o drama, a ação, o suspense, o medo, e agora um pouco de humor também. É por isso que sou grande fã desta série — Acho que é mesmo boa para entreter.

Eu tenho de perguntar, qual foi a reação das pessoas depois de verem o teu momento de “Eye of Tiger”?
[risos]

Agradeço a Deus por ter visto os créditos. Obrigada TiVo!
Muitas pessoas não acreditam que foi uma coisas espontânea mas eu posso jurar que foi. Nós fazemos coisas destas a toda a hora no set.

Ficaste surpreendido por eles o publicarem?
Claro que sim! Bem, Phill Sgriccia, o diretor daquele episódio, também é o nosso produtor por isso ele faz muitas das edições e é ele que usualmente faz os ‘gag reel’. Muitos desses momentos são colocados por ele porque ele deixa a câmara sempre a gravar. Então eu estava fazer o meu papel e Jared não disse a sua fala e eu soube o que ele queria que eu fizesse, ele queria que eu começasse a fazer playback então de repente entrei num videoclip e eles tinham duas câmaras a gravar ao mesmo tempo e deixaram-me fazer playback e o Phill dizia, “Continua!”

Isso foi hilariante!
Mas ele editou tudo e disse, “Meu, eu tenho de usar isto.” E eu disse, “A sério? Para o ‘gag reel’?” E ele disse, “Não, eu quero por isto no fim do episódio.” E eu disse, “És maluco.” E ele disse “Eu vou fazê-lo, e vai ser espetacular.”

[…]

Para ser ator, não existe idade de reforma. Olha para o Clint Eastwood e o fantástico trabalho que ele fez em Gran Torino. Onde é que te vês dentro de 20-30 anos?
Eu sei! Um dos bons aspetos deste trabalho e desta indústria é isso. Eu também acho que poderá ser um dos aspetos mais difíceis neste trabalho, o facto de que tu não sabes onde vais estar dentro de um ano, ou 10, 20, 30 anos daqui para a frente. E para mim, nesta altura da minha vida, isso ainda me entusiasma. Eu não finjo fazer premonições. Eu não coloco nenhum objetivo; Eu vou até onde isto me levar. Se alguma coisa má acontece, eu vou ultrapassar isso.

Depois de My Bloody Valentine 3D e Supernatural queres fazer alguma coisa diferente para o teu próximo papel?
Eu vou pensar nisso quando ele aparecer. Obviamente, fazer outro filme de terror não está na minha lista, mas ao mesmo tempo, eu posso receber uma chamada de Rob Reiner amanhã a dizer, “Adivinha? Eu tenho um filme de terror para ti.” E eu diria, “Onde é que nos encontramos?”

Tu gravas em Vancouver 9 meses por ano. O que é que te parece mais a tua casa, Los Angeles ou Vancouver?
Eu considero L.A. a minha casa.

Vancouver é só o local onde trabalhas?
Sim. Na verdade, eu e Jared partilhamos uma casa, por isso ele tem a sua definição de casa e eu tenho a minha.

E vocês não estão cansados um do outro?
A casa é só usada para dormir porque nós trabalhamos 14-15 horas por dia, vimos para casa, dormimos umas sete ou oito horas e depois voltamos ao trabalho. Eu diria que passo a maior parte do meu tempo na carrinha ou no set.

O anúncio de My Bloody Valentine 3D goza com um encontro (“Nada diz ‘filme perfeito para um encontro’ como uma viagem ao inferno em 3D!!”). Recomendarias os homens a levarem uma mulher a ver o filme?
Não sei. Para mim, sendo viciado em tecnologia, é o que me chama à atenção. Eu quereria ver este filme com uns óculos e ver algo novo e num formato diferente que nunca foi visto antes. É mesmo bom.

Até porque é do género de terror, farias uma sequela se a oportunidade aparecesse?
Claro que sim! Se eles aparecessem com um bom guião e se fizessem outro 3D… Eu só consigo imaginar que depois de fazer o primeiro e trabalhar em todos os aspetos que o próximo será tão suave como manteiga.

Qual esperas que seja a reação das audiências?
Eu espero que eles se divirtam, é o que mais quero. Não espero receber um Globo de Ouro. [risos] Foi definitivamente uma coisa interessante. Eu queria fazê-lo porque estava interessado no formato e na tecnologia, e acho que vai ser fascinante para as pessoas que amam este género. Acho que pessoas de todas as idades podem gostar desta viagem. Não te vai assustar de maneira a que não possas dormir à noite. Vais sair do cinema e dizer, “Foi divertido!”

1 de Fevereiro de 2009 Sílvia Tavares Jose Martinez, Venice Magazine
4ªTemporada, Como ator, Interesses, My Bloody Valentine, Supernatural